Por­tu­gal navega na tor­menta e aproxima-se a tem­pes­tade per­feita. Dev­e­ria já ter, há algum tempo, dedicar-se à agri­cul­tura mas con­tin­uou a remar mais longe, para pescar. Ape­sar de muito bom nave­g­ante, neste mar, nem um Drakkar se safava.

Com a falta de velas, e o rede­moinho a puxar, Por­tu­gal faz o que sem­pre fez — navega para o abismo à espera que um mila­gre aconteça.

Juro que não é difí­cil perce­ber, e sin­ce­ra­mente não com­preendo onde é que a dúvida reside quando falo disto a famil­iares e ami­gos. Vamos equa­cionar um cenário mais fácil de explicar.

O Sr. José Por­tu­gal é mem­bro de um clube de países, dos quais ele tem a profis­são mais mal paga (curiosa­mente, mais mal paga que a Diana Gré­cia!). Só que, toda a gente do clube disse ao José Por­tu­gal: “Pá, tu tens de mostrar que per­tences a este clube, tens de inve­stir e mostrar que estás cá para evoluir como nós!”. Mas o Sr. José Por­tu­gal não tinha muito din­heiro, dado que se ded­i­cava mais a agri­cul­tura e a out­ras profis­sões do primeiro e do segundo escalão económico.

Os cole­gas não foram de modas: “Deixa-te da pro­dução agrí­cola e aposta nos Serviços, que é onde está o din­heiro. Já temos aí o Ramon España e o Jacques França que lhes podes com­prar ver­duras. Aliás, pagamos-te para não pro­duzires senão estás a fazer con­cor­rên­cia a eles. E como tu és um gajo por­reiro vais ali ao Sr. B. CE, que ele arranja-te um cartão de crédito e ficas a pagar tuta e meia.

E assim foi, o pobre do Sr. José Por­tu­gal, todo con­tente, foi con­sumindo. Ape­sar de não ter muito din­heiro, tinha-lhe sido dado um crédito com um muito bom pla­fond e, ape­sar dos seus gas­tos serem maiores do que o rendi­mento que trazia, o Sr. José Por­tu­gal con­fiou nos ami­gos do clube, e no Sr. B.CE que pare­cia que dava din­heiro. Assim o Sr. José Por­tu­gal começou a fazer uma grande vida, con­tando com o din­heiro que pedia emprestado e pagando os juros e pouco mais, e investindo no jogo da bolha, onde todos jogavam, acu­mu­lando uma valente conta no crédito.

Nem assim se safam!

Ora eis que o jogo da bolha reben­tou, e com ele muito din­heiro do Sr. Por­tu­gal. Muitos dos seus inves­ti­men­tos ficaram reduzi­dos a zero ou pior, teve de colo­car mais din­heiro, que não tinha. Foi pedir mais din­heiro ao Sr. B. CE. Ora o Sr. B. CE tam­bém tinha crédi­tos com uma gente que andava no jogo da bolha, e quando se perce­beu que havia mais números no com­puta­dores que din­heiro a cir­cu­lar, descobriu-se a careca a muita gente.

Quem jogava na bolha e investiu no jogo do Sr. José Por­tu­gal, Diana Gré­cia entre out­ros, começou a ver que não havia valor real nos fatos do Sr. José Por­tu­gal. Sem din­heiro e com muitas dívi­das, o Sr. José Por­tu­gal fez con­tas — com o din­heiro que rece­bia não con­seguia pagar as men­sal­i­dades do que devia. Ten­tou vender a sua dívida a juros altos porque já estava muito aflito, mas todos no jogo da bolha se afas­taram. Só o Sr. B. CE foi aju­dando, mas ele já estava com muito pouco din­heiro e sug­eriu que fosse falar com o Sr. F. MI.

O Sr. F. MI é muito aus­tero e com instin­tos de agiota. Só lhe inter­essa a matemática dos números e dos rendi­men­tos e viu o Sr. José Por­tu­gal como ele é — um pobre país agrícul­tor e trans­for­mador indus­trial de pequena dimen­são e algum tur­ismo. E depois viu as con­tas do Sr. José Por­tu­gal e disse-lhe: “tens de mudar de vida se queres que eu te ajude. “Sem din­heiro para comer no próx­imo mês, o Sr. José Por­tu­gal assen­tiu e vieram as regras insus­ten­táveis. Mas era uma armadilha. O sr. José Por­tu­gal assi­nou um con­trato lhe emprestavam 78 mil mil­hões e ele era obri­gado a pagar mais de 112 mil milhões.

O Sr. José Por­tu­gal faz con­tas e não tem escap­atória. Está preso. Se não tinha din­heiro para pagar as suas men­sal­i­dades, agora ainda menos pos­si­bil­i­dade tem, quando a sua dívida aumen­tou de vol­ume con­sid­er­av­el­mente. Preferiu man­ter o orgulho e bom nome na praça das bol­has do que à humil­hação de ter de descer do seu nível de vida e voltar a estar iso­lado e a pro­duzir o seu real valor.

Só um niquinho!

Ape­sar de cor­tar bas­tante todas as suas despe­sas, ao ponto de comer uma lata de atum e uma maçã por dia, não con­segue ter ener­gia (económica!) sufi­ciente para pro­duzir mais no seu tra­balho — a redução dos gas­tos fê-lo anémico. O Sr. F. MI volta e meia aparece com um este­toscó­pio. Vê a casa desprovida de qual­quer valor, todos os bens empen­hados, vê a saúde debil­i­tada do Sr. José Por­tu­gal mas sorri, de forma amarela: “Ainda está vivoNão será por muito tempo que irá neces­si­tar de quimioter­apia porque o tumor da dívida está a corroê-lo por den­tro!”

De noite, sonha com os seus tem­pos de glória, onde sem­pre cru­zou os mares destemido. Mas agora, preso aos seus com­pro­mis­sos,  viaja por mares nunca dantes navegados!

Por­tu­gal, expli­cando basi­ca­mente, mesmo antes da crise, não con­seguia pagar as suas prestações sem recor­rer a crédi­tos. Agora foi-lhe dado um crédito avul­tado em condições agio­tas de mais de 50% de juros na total­i­dade de 10/15 anos. Se dantes não tinha condições, pior ficou. Só aceitou porque não tinha din­heiro para pagar as despe­sas. E por este andar, vai pre­cisar de mais crédi­tos. Quem vos diz que acha sin­ce­ra­mente que esta espi­ral vai acabar bem, só vos está a enganar…

Um abraço e tudo de bom,

P.S.: Desco­bri um “bacano” com ideias arro­jadas. É deste tipo de pes­soas que precisamos!

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