Ainda ontem surgiu uma reportagem na tv (andei  à procura do canal mas não encon­trei :/quem viu e sou­ber, que me diga que eu sub­sti­tuo aqui!) sobre as alter­ações que se estão a efec­tuar no panorama socioe­conómico em Por­tu­gal: as pes­soas que deci­dem aban­donarem a vida das grandes cidades e optam por encon­trar alter­na­ti­vas nos pequenos meios urbanos e rurais e mudar rad­i­cal­mente a sua forma de viver.

Encon­trei alguns pon­tos nesta reportagem que gostava de realçar, no actual panorama de ser free­lancer em Por­tu­gal, e tam­bém com­parar com o meu caso, na minha saída de Lis­boa para Óbidos.

O Bom­bardea­mento

 

Quanto con­segue meter na cabeça ?

Sair das cidades grandes sig­nifica deixar­mos para trás o bom­bardea­mento con­stante da infor­mação. Quando nos deslo­camos para fora da cidade, o tempo parece que abranda, onde a emis­são de infor­mação é fran­ca­mente reduzida e con­seguimos ter mais tempo para apre­ciar os detalhes.

O trata­mento da infor­mação, que nos chega a um ritmo alu­ci­nante, e é proces­sada por nós, força o cére­bro a entrar em sobre car­rega­mento. O resul­tado final é um cansaço anor­mal da activi­dade men­tal e um con­stante descarte de infor­mações rel­a­ti­va­mente impor­tantes, condi­cionadas por esse excesso de infor­mação e o pos­te­rior tratamento.

Para o Free­lancer, e falando explici­ta­mente de IT, os grandes cen­tros urbanos trazem um incon­ve­niente – a neces­si­dade de con­stante actu­al­iza­ção. A prin­ci­pal fonte de rendi­mento do free­lancer depende de uma base sól­ida dos seus con­hec­i­men­tos. Essa base sól­ida provém do frágil equi­líbrio entre os novos con­hec­i­men­tos e a provação de con­hec­i­men­tos adquiri­dos e tes­ta­dos em vários pro­jec­tos. É comum o free­lancer dedicar algum tempo ao R&D, mas isto implica sac­ri­ficar tempo de pro­dução, onde pode max­i­mizar os seus rendi­men­tos cor­re­spon­dendo as expec­ta­ti­vas de grande con­hec­i­mento téc­nico com bom valor horário. No entanto, os grandes cen­tros urbanos são mais propen­sos a apos­tar no R&D como plataforma de difer­en­ci­ação e mar­ket­ing exigindo, muitas vezes, “the next big thing”, o último grito em tec­nolo­gia [desde a batata frita!], obri­g­ando o free­lancer a gas­tar mais do seu tempo em R&D, con­sumindo o seu tempo de pro­dução ou o seu tempo livre.

 O Sobre carregamento

Deja vu, you too ?

Os grandes cen­tros urbanos oferecem-nos uma miríade de pro­du­tos e serviços… que nor­mal­mente não neces­si­taríamos. Sub­screve­mos aos mes­mos por sen­tir que nos falta algo, e ten­ta­mos sat­is­fazer essa neces­si­dade criando um sobre car­rega­mento dos sen­ti­dos. É um pouco como quando se “afoga o fra­casso em álcool” (sem con­hec­i­mento de causa, hein!? Não pensem dis­parates!)– ten­ta­mos entor­pecer os sentidos.

O grande prob­lema é que acabamos com­pro­meti­dos a esses serviços e é difí­cil de nos largar­mos deles. Torna-se parte da nossa vida, da nossa rotina, e acabamos por considerá-los essenciais.

Quando nos preparamos para ren­o­var os nos­sos orça­men­tos, olhamos para toda esta panó­plia de “entor­pe­centes”, com­bi­nado com a mescla de com­pro­mis­sos a que nos dedicamos e as cor­re­rias que faze­mos para ten­tar usufruir de tudo, e acabamos por nos sen­tir sobre­car­rega­dos — Stresses, ansiedades, prob­le­mas cardía­cos, etc.

O Free­lancer, assim como qual­quer empresário em nome indi­vid­ual, sofre de maneira sig­ni­fica­tiva do prob­lema do stress e sobre car­rega­mento – existe uma inse­gu­rança sobre a con­stân­cia dos rendi­men­tos e dos tra­bal­hos que, em situ­ações como esta crise, são pon­tu­ais, rápi­dos e baratos. Assim, é fácil para o free­lancer sim­ples­mente“ten­tar ir a todas” agradando o máx­imo pos­sível ao cliente para man­ter o seu cash­flow e ver-se rap­i­da­mente sem margem de manobra e encur­ral­ado nos seus compromissos.

 A Qual­i­dade de Vida

 

Redesco­brir a vida

Com um abran­da­mento de toda esta activi­dade men­tal, com a sig­ni­fica­tiva baixa do nível de vida e com um real­in­hamento dos objec­tivos e o forçoso descarte de bens mate­ri­ais supér­fluos, é facil­mente per­cep­tível que existe um aumento sig­ni­fica­tivo da qual­i­dade de vida.

Se aliar­mos isso ao aumento de vital­i­dade que a vida no campo nos pode pro­por­cionar, podemos con­cluir que existe uma grande pos­si­bil­i­dade de nos sen­tir­mos mais real­iza­dos com esta mudança de vida.

O Free­lancer ben­e­fi­cia desta qual­i­dade de vida, sendo uma das prin­ci­pais deste estilo de vida. A pos­si­bil­i­dade de angariar ainda mais qual­i­dade de vida poten­cia a qual­i­dade de tra­balho, bem como da neces­si­dade de pro­dução de riqueza, que é infe­rior neste cenário.

 Reestru­tu­ração Socioeconómica

De volta da cidade grande ?

O tecido socioe­conómico renova-se. A migração das pes­soas, da grande cidade de volta para os pequenos cen­tros, revi­tal­iza o país. Enrique­cido pelo con­hec­i­mento e empreende­dorismo que estas pes­soas trazem, as peque­nas cidades e cen­tros rurais tornam-se nova­mente cen­tros pro­du­tivos e cri­adores de riqueza, sendo esta ajus­tada ao nível de vida. Os grandes cen­tros urbanos tam­bém são revi­tal­iza­dos, reti­rando pes­soas que já extraíam algum rendi­mento ele­vado, e trocando-as por jovens que auferem rendi­men­tos mais pequenos e recol­hem con­hec­i­mento que, mais tarde, irão levar de volta às suas origens.

O Free­lancer acaba por ben­e­fi­ciar deste deslo­ca­mento, tanto os que povoam os grandes cen­tros, como os que se deslo­cam para os pequenos cen­tros urbanos. As opor­tu­nidades crescem em ambos, dado que exis­tem maiores ofer­tas de tra­bal­hos para téc­ni­cos alta­mente qual­i­fi­ca­dos nos grandes cen­tros urbanos, onde os juniores não têm ainda exper­iên­cia, bem como nos pequenos cen­tros urbanos, onde os novos empreende­dores e a nova massa pop­u­la­cional exigem tra­bal­hos com maior qual­i­dade e capaci­dade técnica.

 Conclusão

 

Está quase, a ida para Óbidos!

Não é de hoje que defendo uma mudança de vida, mas nem sem­pre é pos­sível rad­i­calizarmos sem perder algo fun­da­men­tal. Ou então rad­i­cal­izamos porque o perdemos. Eu criei um plano à volta de tudo isto e cal­en­darizei a minha saída. Foi um processo com tempo, que teve mat­u­ração e levou algu­mas vira­gens, espe­cial­mente de locais, mas ficou con­cluído. Em Abril, ofi­cial­izo a minha mudança de vida para Óbidos.

Como Free­lancer, sinto que a mudança de part-time para full-time vai ser bas­tante sig­ni­fica­tiva, espe­cial­mente se pen­sar­mos que irei para um cen­tro que não é a minha área de actu­ação. Parto com a certeza inata das min­has capaci­dades e o sen­ti­mento que existe neces­si­dade das min­has car­ac­terís­ti­cas pes­soais. Certo tam­bém que pos­suo a van­tagem da mobil­i­dade do free­lancer, uma das suas grandes armas. Ela irá per­mi­tir as min­has pou­cas lig­ações a Lis­boa, a par­tir de alguns clientes, e ter alguma segu­rança em futuros rendimentos.

Quanto à reportagem, emb­ora tenha ficado con­tente por ver­i­ficar que estou cor­recto em assumir que as pes­soas aumen­tam rad­i­cal­mente a sua qual­i­dade de vida nes­tas alter­na­ti­vas, fiquei triste: não fui o pio­neiro nesta decisão.

O mote do Nuno: “Acordo todos os dias de manhã preparado para uma cor­rida de obstácu­los” E tu ?

Um abraço e tudo de bom,

0 comments