Este artigo é ded­i­cado ao meu mestre de capoeira, o Mestre António “Brancão” Oliveira, que através da sua maneira de ser, me ensi­nou a ser um mel­hor ser humano.

Gosto imenso de activi­dades aquáti­cas como mer­gulho, vela, surf — sinto uma afinidade espe­cial com a água. Emb­ora nunca me tenha ded­i­cado a sério a estas activi­dades, já exper­i­mentei todas elas e a mais prática, sem dúvida, é o surf.

E o fan­tás­tico é que o surf ensina-nos imenso sobre como abor­dar a vida e as difi­cul­dades que esta nos apresenta.

Um pequeno dis­claimer primeiro: eu não sou um grande sur­fista. Aliás, eu diria que sur­far nem sequer está no meu top de capaci­dades em que sou mera­mente razoável. No entanto isso não me impede de gostar de praticar e de tirar as min­has próprias con­clusões sobre o surf e a analo­gia com a vida profis­sional e pes­soal de cada um.

Oca­sion­al­mente ia, aos fins de sem­ana, com o meu Mestre António Oliveira, nas pra­ias da Costa da Caparica, pegar na pran­cha e lançar-me à água. Para desporto con­sid­er­ado rad­i­cal, para além de ser uma exper­iên­cia ine­bri­ante, tem momen­tos de adren­a­lina máx­ima e momen­tos de relax­am­ento e comunhão com a natureza que não  encon­trei semel­hante noutras activi­dades — a nossa própria dimen­são face à força da natureza.

Após pen­sar um pouco desco­bri que o surf nos pode ensi­nar imenso sobre a vida e é, sem dúvida, um desporto a con­sid­erar colo­car o seu filho ou filha se pre­tende lhe ensi­nar as lições bási­cas da vida,  desde muito cedo, situ­ações que ele ou ela irão encon­trar no curso da sua evolução.

Sair do conforto

Antes sequer de pen­sar em sair para ir para a praia, grande parte do esforço era usado para vencer a inér­cia de sair do con­forto de casa. Boa parte da apren­diza­gem no surf não é real­izada no Verão, quando as pra­ias estão cheias, mas no tempo frio, quando temos espaço para manobrar as pran­chas sem atro­pelar as pes­soas. Assim, con­ju­gando com o facto que temos de sujar o carro com areia e água, temos de limpar mais ou menos tudo antes de rumar a casa, envolve tra­balho. Implica sair da zona de con­forto. Assim como quando apren­demos a tra­bal­har como free­lancer, temos de sair da nossa zona de con­forto e entrar em perío­dos de frio enquanto apren­demos, para, no verão da car­reira estar­mos à von­tade, após a rebentação.

Braçadas con­stantes são fundamentais

Tal como no surf, no tra­balho de ser free­lancer temos de estar con­stan­te­mente a tra­bal­har os braços, só em poucos segun­dos esporádi­cos podemos dar-nos ao luxo de gozar a onda. Esta acaba muito depressa e volta­mos a ter de puxar braçadas e esperar outra boa onda. Há dias que não se con­seguem boas ondas e provavel­mente não con­seguimos gozar uma única onda, mas não podemos deixar de dar ao braço!

Equi­líbrio no surf e navida

O Equi­líbrio é fundamental

Tal como no surf, quando tra­bal­hamos como ser free­lancer, o equi­líbrio é fun­da­men­tal. O equi­líbrio envolve não só as finanças pes­soais e as finanças do negó­cio, como o equi­líbrio entre o tra­balho e a família e ami­gos. Se cheg­amos ao ponto de não con­seguirmos o equi­líbrio, nunca vamos apren­der a estar por cima tranquilamente.

Hes­i­tações nas oportunidades

No surf e nos negó­cios, as opor­tu­nidades pas­sam a voar. Micro-segundos ou muitos poucos segun­dos nos quais uma decisão e uma ati­tude mudam o rumo de uma abor­dagem. O surf ensina-nos que, na vida pes­soal, e profis­sional, temos de iden­ti­ficar as opor­tu­nidades e não hes­i­tar quando for o momento. O facto de fal­har­mos implica ajus­tar­mos o nosso tim­ing de abor­dagem às opor­tu­nidades, por­tanto fal­har aqui é sim­ples­mente ajus­tar o nosso iden­ti­fi­cador de opor­tu­nidades e tim­ing pes­soal. Algo impor­tante, não acham ?

Pas­sar a zona de rebentação

No surf como na vida, a reben­tação é a linha sep­a­radora entre a mino­ria boa ou exce­lente e a massa medíocre, é o lim­ite entre não perce­ber­mos e dom­i­n­ar­mos cer­tas matérias, entre o “nunca fiz” e o “pfffff já fiz”, entre o “parece com­pli­cado” e o “é peanuts (amen­doins)”. Em tudo o que fiz­erem, iden­ti­ficar a reben­tação e passá-la é essen­cial para a evolução. Como free­lancer, essas lin­has encontram-se à nossa volta, no iní­cio, e custa atacar todas elas no princípio.

É impor­tante começar por ultra­pas­sar as várias zonas de reben­tação que encon­tramos na vida, desde cedo e fun­da­men­tal pas­sar uma zona de reben­tação: aquela que define a von­tade de pas­sar zonas de rebentação!

Existe aqui um con­ceito impor­tante que leva muitas pes­soas a olhar para lá da zona de reben­tação e perce­berem que lá ao fundo, onde é óptimo apan­har a onda, é muito fundo. No entanto, com os pés na areia é onde se aprende mas não se tira rendi­mento do surf. Nen­hum! É pre­ciso com­preen­der que o rendi­mento em tudo o que faze­mos é inver­sa­mente pro­por­cional ao que a maio­ria das pes­soas faz. Temos de ir lá para fora, fora do pé, se quis­er­mos real­mente tirar par­tido de tudo o que gostá­va­mos de ter.

E depois, como diz Seth Godin, a par­tir do momento em que não temos pé, faz real­mente alguma difer­ença qual a pro­fun­di­dade a que esta­mos no mar ?

Ater­rar sabendo com o que conta!

Con­hecer o local

No surf, como na vida pes­soal e profis­sional, é impor­tante con­hecer  local, a praia, e o cam­inho que tril­hamos. Um cam­inho de pedras no meio do lago, se não o con­hece­mos ou apren­demos com alguma per­spicá­cia, mais tarde ou mais cedo, caí­mos no lago. É inevitável que acon­teça um passo em falso porque é assim que apren­demos, mas con­stan­te­mente é falta de atenção e desejo de con­hecer o local.

Uma praia com fundo de areia ou praia com fundo de cal­hau, ou até de ouriços, tem de levar cuida­dos difer­entes. Uma car­reira em algo que já con­hece­mos ou um mer­cado total­mente difer­ente também!

Con­cor­rên­cia das mel­hores praias

Uma boa praia sig­nifica mel­hor rendi­mento do nosso tempo, mas implica que provavel­mente vamos apan­har con­cor­rên­cia. Num mer­cado como free­lancer tam­bém.  Sendo assim temos de estar prepara­dos para essa con­cor­rên­cia, ou por con­hecer­mos bem a praia e estar­mos nela já há algum tempo, o que nos faz local da praia e temos con­hec­i­men­tos den­tro dela. Os locais protegem-se entre si, tanto no surf, como nos negó­cios. Caso sejamos novos no mer­cado, temos de começar cedo e tra­bal­har bas­tante e ser­mos muito cor­diais com quem já fez daquela praia o seu local de modo a con­seguirmos granjear a sua confiança.

No surf como na vida con­viver com os melhores.

Ser dos mel­hores con­vivendo com eles

Tanto no surf como na vida, em todos os aspec­tos, somos seres de cópia. Con­seguimos ter tanto sucesso como outra pes­soa se imi­tar­mos as suas ati­tudes, os seus com­por­ta­men­tos e os seus val­ores. Assim em qual­quer aspecto da nossa vida, se encon­trar­mos um mod­elo com o qual nos iden­ti­fi­camos, basta concentrar-mo-nos nessa pes­soa como um men­tor indi­recto e avaliar todos os seus pas­sos e copiar. Este mod­elo de espelho é con­sid­er­ado o mel­hor processo de atin­gir o mesmo que outra pes­soa atingiu.

Assim que esta­mos no top, andamos para trás

No surf como nos negó­cios, quando usufruirmos da nossa “onda”, temos de nos lem­brar que aquele período é curto, e que não tarda vai acabar. Para nos colo­car­mos de novo no mer­cado, temos de remar nova­mente para chegar onde estão os out­ros. “Mon­tar” uma onda durante muito tempo, e não avaliar­mos que aquela onda já não nos traz rendi­mento, inde­pen­den­te­mente de a ter­mos apan­hado em primeiro lugar, temos de a largar sobre o pre­juízo de nos atrasar­mos imenso, e ter­mos de pas­sar nova reben­tação e remar muito mais para voltar­mos ao mer­cado! Este con­ceito é muito importante!

Sair quando se está cansado

No surf cansamos o corpo, e pas­sado algum tempo valente não só não con­seguimos extrair rendi­mento das ondas, como podemos arriscar a fal­har um passo e ficar­mos em sérios apuros. Nos negó­cios, se esta­mos estoira­dos, ou esgo­ta­dos, fazer erros torna-se cada vez mais previsível.

Até exis­tem cer­tos nego­ciantes que procu­ram os momen­tos mais vul­neráveis das pes­soas para mar­car reuniões de negó­cios, manip­u­lando o seu estado de espírito para poderem levar vantagem.

Quando isto acon­te­cer, tire férias. Saia do local. Não está a fazer favor nen­hum a si mesmo con­tin­uar na água depois de estoirado.

 

Espero que estas dicas vos coloque, em per­spec­tiva, ambos os cenários e que per­mita, de outra maneira, explicar como podem mel­hor imple­men­tar as vos­sas abor­da­gens e ati­tudes em relação à vossa vida e ao vosso negó­cio. Quiçá vos dê von­tade de pegar numa pran­cha e vencer o frio :D .

 

Um abraço e tudo de bom,

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