Se cal­har dev­e­ria pedir des­culpa pelo título ríspido e imagem chocante, mas já não é de hoje, em que escrevo este post, que me oponho forte­mente a este sis­tema de ensino que, já na altura que o fre­quen­tava, há 20 anos como agora, encontra-se forte­mente desajustado.

Mas não é só o nosso sis­tema de ensino, é do quase todo o mundo. Salvo raras excepções nos países emer­gentes, podemos de facto apre­ciar as van­ta­gens e resul­ta­dos na econo­mia actual — 35% de desem­prego em Por­tu­gal e a chegar aos 50% de desem­prego em Espanha, para os jovens dos 15 aos 24 anos.

Será pre­ciso dizer mais ?

Sim! De facto é pre­ciso dizer mais. É pre­ciso apre­sen­tar soluções. Não basta criticar, é pre­ciso apon­tar os cam­in­hos correctos.

Canudo só não dá!

O canudo não resolve

Que o digam os jovens que acabam a uni­ver­si­dade. No iní­cio, era a frase cliché: “Se fores bom aluno, tirares boas notas, um bom curso, arran­jas bom emprego e, se tra­bal­hares bem para o teu patrão, con­seguirás uma car­reira para a vida inteira!”

Infe­liz­mente, quem de dire­ito, pais, pro­fes­sores, gov­er­nantes e patrões, esqueceram-se de lhes dizer que a car­reira deles depende, não dele direc­ta­mente, mas de lhe arran­jarem tra­balho que jus­ti­fique o emprego.

Hoje em dia, o diploma não ajuda a arran­jar um bom emprego — deter­mina sim­ples­mente que tipo de des­ig­nação hon­orí­fica terá nos vários cartões de débito e crédito e um bonito diploma para pen­durar na parede.

A econo­mia mudou

A econo­mia mudou há muito. Desde 1990 que já se devia ter mudado o ensino em Por­tu­gal, para não dizer antes. O sis­tema de ensino actual foi real­izado para pegar nas nos­sas cri­anças jovens e inqui­etas, muito curiosas, em tra­bal­hadores de linha de mon­tagem, qui­etos e sossega­dos, que é o que era necessário na era indus­trial. Pas­samos a era de serviços inteira com uma edu­cação retrógrada e nada prática. Cheg­amos à era das exper­iên­cias, da difer­en­ci­ação do serviço ao con­sum­i­dor — da cri­ação do par­tic­u­lar e do único — e con­tin­u­amos com uma edu­cação que priv­i­le­gia o tra­bal­hador para as lin­has de mon­tagem. Não admira que não con­sigam perce­ber em que raio de mundo foram largados.

O sta­tus quo das elites

No entanto, em Por­tu­gal, por um desvairo nar­ci­sista ou espel­hando o desejo do sta­tus quo que as elites regur­gi­tam em frente aos media nacionais, nos trata­men­tos difer­en­ci­a­dos de todos os quad­rantes soci­ais, o ensino con­tinua a bom­bardear a sociedade com advo­ga­dos, médi­cos, sociól­o­gos, jor­nal­is­tas e pro­fes­sores que acabam nas enormes lis­tas de desem­prego, bis­cates em call-centers e part-times na fast-food. E todos, na sua grande maio­ria, con­tin­uam a fomen­tar isto: pais que querem que os fil­hos sejam doutores, pro­fes­sores que se agar­ram ao Estado, ape­sar de já não exi­s­tir vagas, gov­er­nantes que priv­i­le­giam os jovens activis­tas do seu par­tido para con­tin­uar a obscena e imoral falta de com­petên­cia na gov­er­nação do país, médi­cos que defen­dem o seu sta­tus quo a todo o custo impedindo a entrada de  novos con­hec­i­men­tos na área da med­i­c­ina que não envolvam cor­tar gente ao meio ou encher-nos de estu­pe­fa­cientes e quími­cos, para con­tin­uar a rece­ber a sua par­tic­i­pação estatal e as benesses do lobby far­ma­cêu­tico, advo­ga­dos que são estre­las de rock nos media nacionais e que só dão valor ao din­heiro e à fama, inde­pen­den­te­mente da ver­dade e da justiça, e que tratam os novos advo­ga­dos abaixo de cão. De tudo isto eu tenho exper­iên­cias e relatos. É degradante. isto sim­ples­mente tem de acabar.

 

É pre­ciso mudar a edu­cação. Urgen­te­mente. As mudanças na sociedade e na econo­mia à escala global estão a sur­gir ver­tig­i­nosa­mente e con­tin­u­amos a operar em sis­temas monolíti­cos e conservadores.

Edu­cação de exames via fax pro­duz estes resul­ta­dos — um dia PM, noutro pisga-se para filosofar.

Edu­cação diferenciada

Pre­cisamos de uma edu­cação difer­en­ci­ada, focada nas neces­si­dades do mer­cado a nível local, regional e global.  Pre­cisamos de for­mar gente com paixão e com as fer­ra­men­tas necessárias para vin­gar no mer­cado — con­hec­i­men­tos da lei, das finanças region­ais, de mar­ket­ing e ven­das, de análise de mer­cado, de plano de negó­cios. Pre­cisamos fornecer está­gios de mais alto nível — chega de call cen­ters e mcdon­alds. Pre­cisamos tam­bém de for­mar empresários com car­ac­terís­ti­cas únicas.

Pre­cisamos de con­sid­erar teses de final de curso que envolva a cri­ação de pro­du­tos, de negó­cios, de empre­sas tendo em vista o con­sum­i­dor ou par­ceiros de negó­cio, em ino­vação para a expor­tação, e pre­miar esta gente, dando-lhes motivos e razões para con­tin­uar a pro­duzir em nome de Portugal.

Incen­tivos regionais

A region­al­iza­ção faz imensa falta a Por­tu­gal. É abso­lu­ta­mente necessário os gov­er­nantes das regiões terem autono­mia para criar condições de fixar os seus tal­en­tos — é abso­lu­ta­mente necessário arran­jar gov­er­nantes que saibam o que isto quer dizer, e tirem o respec­tivo da cadeira e come­cem a tra­bal­har neste sentido.

Uma edu­cação voca­cionada para as neces­si­dades da região, o tra­balho com os locais, apren­der a con­hecer e a tra­bal­har as fal­has da região e impul­sionar as econo­mias locais — salvo raras excepções, acred­ito que um “filho da terra” só não ajude a sua região se não lhe derem condições sufi­cientes para poder ter uma vida razoável.

Envolvi­mento do mundo empresarial

Nos países nórdi­cos, existe uma grande afinidade entre o mundo empre­sar­ial e as uni­ver­si­dades. O primeiro define as neces­si­dades de empre­ga­bil­i­dade e pro­move, através de sub­sí­dios às uni­ver­si­dades, o tipo de tra­bal­hador que o mer­cado neces­sita. Em troca pelo finan­cia­mento, as uni­ver­si­dades criam os cur­sos adap­ta­dos à neces­si­dades das empre­sas. Esta é a união per­feita entre o ensino e a neces­si­dade do mer­cado laboral.

 

Con­clusão

Quando os jovens fazem greve, a pre­visão de futuro não é positiva!

Esta­mos a matar Por­tu­gal aos poucos. Não é na aus­teri­dade que Por­tu­gal vai pere­cer; é na falta de aproveita­mento do seu tal­ento jovem. Esta­mos a dizer a estes jovens que o que eles apren­dem, de pouco vale. E que, à medida que apren­dem na escola, desapren­dem os val­ores de cri­ança, tão necessários nos dias de hoje, e que os torna únicos.

O que é engraçado, para terem uma noção, é que eu, em cri­ança, aprendi a pro­gra­mar BASIC, com o velho ZX81 e depois o ZX Spec­trum, peque­nas apli­cações e jogos.

Quando acabei a escola fui para os CTT, ser carteiro de dis­tribuição interna, e depois fui Super­vi­sor Téc­nico de Redes, mas o que eu gostava mesmo era de pro­gra­mar. Foi pre­ciso eu ensi­nar a mim próprio como se fazia — graças à Inter­net, muito rudi­men­tar na altura — e me des­pedir de um bom emprego, na altura, para for­mar a minha empresa. Empresa esta que foi à falên­cia, em que todos os pas­sos que fazia era sem rede, sem apoio e sem infor­mação e que acabei por come­ter erros fatais. Mas que me per­mi­tiu apren­der, e sin­grar como programador!

O que escrevo e defendo nes­tas lin­has, é que os jovens vão ter de que ingres­sar num mundo sem rede se querem vin­gar — o risco não pode ser mais evi­tado; tem de ser gerido. E que alguém os ajude, talvez nós aqui que esta­mos a apren­der em conjunto.

E aos gov­er­nantes, gestores de edu­cação e pro­fes­sores, à maio­ria delas, gostaria de ser reli­gioso. Isto porque gostava de dizer, com toda a intenção da minha alma: “Perdoai-os Sen­hor, que eles não sabem o que fazem!”

Bons pro­jec­tos!

 

Um abraço e tudo de bom,

P.S.: Acon­selho todos a ler o man­i­festo de Seth Godin sobre a edu­cação. Acho que vão anal­isar e val­i­dar alguns pon­tos semel­hantes ao que escrevi.

 

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