Fev 22, 2012

O grande desafio

Por­tu­gal aproxima-se a pas­sos lar­gos para uma mudança estru­tural no desen­volvi­mento da sua econo­mia e da sua sociedade como ger­adora de riqueza. É inevitável que assim seja. Ape­sar de todas as man­i­fes­tações, greves e toda a con­tes­tação, Por­tu­gal já há muito que dev­e­ria ter alter­ado a sua dinâmica social ao nível de como a sua econo­mia fun­ciona. A grande difer­ença é que vai ser necessário queimar uma ou mais leg­is­lações, um ou mais gru­pos de gov­er­nantes, na ten­ta­tiva de ten­tar mudar a ori­en­tação de um ice­ber­gue pela ponta — quando dev­e­riam ter sido feitos esforços para ori­en­tar a sua direcção, lid­erando pela base, na edu­cação dos seus cidadãos.

Com a glob­al­iza­ção, a tec­nolo­gia que ajuda a homo­geneizar todo o tecido económico do mundo, as mudanças que se estão a gerar são globais — e Por­tu­gal não está indifer­ente a elas.

O prob­lema de Portugal

Este é um prob­lema com­plexo, que com­preende vários sec­tores e vários fac­tores, mas cuja solução depreende uma mudança sig­ni­fica­tiva no peso do Estado e como a sociedade vê o Estado hoje em dia.

Deixo-vos aqui um con­ceito: o Estado não suporta a Econo­mia.

Sobre os fun­cionários públicos

Não há muito tempo, tra­bal­har para o Estado era uma fonte segura de rendi­men­tos, bem como várias regalias. Políti­cas que sur­gi­ram na ten­ta­tiva de atrair bons quadros téc­ni­cos e altos e que, sem dúvida, é uma tác­tica de con­cor­rên­cia efi­caz, mas ficou detur­pada pela cul­tura latina, dos tachos e das famílias e que engor­dou o Estado ao ponto onde cheg­amos. É com­preen­sível que é injusto para as famílias que vão ficar sem as suas regalias e os seus rendi­men­tos, encal­hadas numa situ­ação desesperante.

Porém, estes fun­cionários têm de enten­der um facto dev­eras sim­ples: O Estado não gera riqueza.

Sobre o desemprego

Outro prob­lema que é fonte de protestos e diss­a­bores con­cre­tos dos jovens e dos recém dis­pen­sa­dos é o desem­prego. Num esforço sub­li­mar de ema­grec­i­mento, o Estado e as empre­sas estão a ten­tar adaptar-se, quão rápido como pos­sível, à falta do crédito recor­rente de todos estes momen­tos económi­cos, e as pes­soas estão zan­gadas com as empre­sas que as des­pedi­ram, zan­gadas com o Estado que não arranja solução, zan­gadas com todos estes prob­le­mas que foram cri­a­dos, não por estas enti­dades, mas por um movi­mento sig­ni­fica­tivo de rec­ti­fi­cação dos mercados.

O que o Estado dev­e­ria fazer, e não o faz cor­rec­ta­mente, era aproveitar a estru­tura do Cen­tro de Emprego e efec­tuar uma análise de aptidões e com­petên­cias, com base em testes psi­cológi­cos voca­ciona­dos para o efeito e deter­mi­nar quais os gos­tos e os tal­en­tos em con­junto que cada desem­pre­gado tem, que pode ser uma mais valia nos mer­ca­dos exis­tentes — o Estado não gere carreiras.

Estes pilares não são sustentáveis!

Sobre os jovens

Outro prob­lema é a política actual da Edu­cação: cria téc­ni­cos e não cria cidadãos. Um dos meus grandes desafios enquanto cidadão foi a minha luta con­stante com a lei e com o fisco. Havia sim­ples­mente uma miríade de coisas que eu não sabia e senti ime­di­ata­mente que a culpa não era minha: era meu dever enquanto cidadão saber sobre a lei que me gov­erna e saber os pre­ceitos económi­cos que me definem, os meus deveres e os meus dire­itos, mas que nunca me foram ensi­na­dos. A par­tir do momento em que somos cidadãos, aos 18 anos, pimba — tens de saber ime­di­ata­mente a lei que te gov­erna e, se fores tra­bal­har, pimba nova­mente, com os impos­tos e com toda a parafer­nália finan­ceira. Saí­mos do ciclo literário com­ple­ta­mente desprepara­dos para o que nos espera e essa preparação dev­e­ria fazer parte do cur­rículo esco­lar. Cadeiras de lei e de finanças dev­e­riam ser fun­da­men­tais no ciclo secundário, e a inci­tação à pesquisa próprio por parte do indi­ví­duo — o Estado não prepara cidadãos.

Depois de tudo isto, é fácil con­cluir que o Estado é um ice­ber­gue, no qual só vimos a ponta — o Gov­erno. Eu próprio senti na pele, várias vezes, em pro­jec­tos do Estado, a difi­cul­dade que os direc­tores recém-nomeados, cheios de boas intenções, sen­tem ao ten­tar mudar o sta­tus quo insta­l­ado. Os fun­cionários públi­cos, na sua grande maio­ria, são aves­sos a mudanças, inde­pen­den­te­mente se isso ajuda ou não os cidadãos que depen­dem dos seus serviços.

Então o que irá acon­te­cer é que o Gov­erno vai mudar tudo de cima para baixo, só que  o ice­ber­gue não pode ser ori­en­tado pela ponta.

Acerca da saída do Euro

Por­tu­gal e o Euro!

Todas estas notí­cias da Gré­cia e espec­u­lações sobre os trata­dos cada dia me fazem sus­peitar do que irá acon­te­cer: ainda alguém acred­ita que a Gré­cia irá respeitar este acordo ? 

Com o abalão económico, os países têm de mudar as suas políti­cas para mel­hor se adaptarem aos mer­ca­dos. Estes estão a ser con­duzi­dos a veloci­dades cada vez maiores, e os novos “play­ers” são os BRIC: Brasil, Rús­sia, Índia e China.

Por muito bonita que seja a ideia do Euro e de uma Europa Unida, o con­ceito peca pela base. Uma mescla de países e de cul­turas tão dis­tin­tas a tentarem ori­en­tar um rumo comum, criando um cam­inho de com­pro­misso medíocre em resul­ta­dos face aos entraves políti­cos, soci­ais e cul­tur­ais. Nunca iria funcionar.

Uma con­strução Lego chamada EUROPA

Chamem-me cínico ou neg­a­tivista, mas eu sinto a Europa como uma con­strução lego hor­i­zon­tal gigante, que eu agora quero mudar para uma outra sala do meu aparta­mento. Não posso sim­ples­mente pegar nela e levá-la, pois não é pequena. A minha mel­hor solução é par­tir aos boca­dos e levá-laÉ o que sinto que vai acon­te­cer à União Europeia.

Assim que a Gré­cia cair, as apos­tas sobre Por­tu­gal cair tam­bém irão redo­brar… e não resi­s­tire­mos à pressão dos mer­ca­dos. Vai ser um momento de grande con­fusão e eu auguro que será ainda em 2012 ou iní­cio de 2013. Os próx­i­mos pas­sos da Gré­cia serão fundamentais.

Os gov­er­nantes de Por­tu­gal já sabem o que vai acon­te­cer. O Primeiro-Ministro já mudou o seu dis­curso de não pre­cisar de rene­go­ciar o tratado, mas depois da queda da Gré­cia, vamos ficar sem ajuda possível.

Afi­nal qual é o grande desafio ?

É inevitável que pre­cisamos de mudar o nosso hor­i­zonte. Quando Por­tu­gal sair do Euro, a situ­ação irá ficar muito mais com­pli­cada. A desval­oriza­ção da moeda irá aju­dar a man­ter as aparên­cias para os menos aten­tos, que irão ficar apa­vo­ra­dos em como “ficou tudo muito mais caro”. Esta medida servirá para nive­lar os sub­sí­dios de desem­prego, os salários e as refor­mas de uma assen­tada só. O grande prob­lema é que o por­tuguês ficará mais pobre.

 Já não estará na altura de abrir os olhos ? Basta seguir pelas pági­nas dos jor­nais que o Car­naval manteve-se em quase toda a linha, como se não estivésse­mos em crise económica. Quem tra­balho por sua própria conta, o dia de ontem foi um pre­juízo. Eu, por exem­plo, tive de adiar um dia para o final do meu con­trato, já que estava con­tem­plado este dia como não pro­du­tivo — não por mim, mas a pedido do cliente.

A minha cun­hada, para dar um exem­plo, se não tra­bal­hasse no Car­naval, não rece­bia. E não dev­e­ria ser assim ?

Temos, de uma vez por todas, de pen­sar que, se quer­e­mos mudar alguma coisa, temos primeiro de mudar nós mesmos.

Este desafio de mudança tem de ser super­ado, se não quer­e­mos entrar num buraco sem fundo. Vão exi­s­tir sac­ri­fi­ca­dos que, ou se lev­an­tarão e tomam as respon­s­abil­i­dade de gerar riqueza por sua conta, ou se man­i­fes­tarão e comis­er­arão na sua própria pena.

Con­clusão

Grá­fico do Cresci­mento económico Português

Não pre­tendo ferir sus­cep­ti­bil­i­dades de ninguém, e acred­ito que há casos que os cortes vão ser injus­tos. No entanto, quando não se faz o tra­balho de casa atem­pada­mente, o reme­diar há-de ser sem­pre um pés­simo resultado.

Este artigo é provido de opiniões pes­soais com base nas min­has ideias e na minha exper­iên­cia. Não sou econ­o­mista, não sou politól­ogo, mas sei que “em casa que não tem pão, todos ral­ham e ninguém tem razão.

Será que diziam esta frase na casa do padeiro ?

Um abraço e tudo de bom,

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