Dei-me conta, há bas­tante pouco tempo, de um fenó­meno tão inter­es­sante como arrepi­ante. Outro título menos cáus­tico para este artigo seria “A bolha das redes soci­ais”, mas o facto que me apercebi é tão nocivo que espero que sirva de chamada de alerta.

Imag­inem o seguinte cenário: vamos ambos, eu e o meu amigo, a um bar que é por nós bas­tante con­hecido, pop­u­lado por gente nossa con­hecida, ami­gos nos­sos e ami­gos dos nos­sos ami­gos. Lá, eu tenho uma von­tade de par­til­har imenso uma história, uma ideia, con­tar uma ane­dota, etc.

E logo a seguir, o que acontece ?

Enquanto tento fazer isso, o meu amigo grita para a audiên­cia: “Este gajo é fan­tás­tico, ouçam isto, ouçam isto.”

” É demais!” diz ele, “muito bom! Este meu amigo é fantástico!”

Entre­tanto, se deitar­mos o social­mente cor­recto pela janela fora e perguntar-mos a este meu amigo que raio acabei eu de falar, ele não sabe, não ouviu.

Social­mente cor­recto é igno­rar o ele­fante na sala.

Estas situ­ações estão a sur­gir um pouco por toda a estru­tura de media social em Por­tu­gal (os exem­p­los que tenho são por­tugue­ses, pelo menos!) e vou con­tar um caso.

Sucede-se, de uma con­versa, alguém colo­cou um post de um blog no face­book e em menos de 10 min­u­tos rece­beram um like. Muito entu­si­as­mado a pes­soa que estava atenta às estatís­ti­cas do blog e a ver­i­ficar a proveniên­cia destes: rece­beu o like, mas nas estatís­ti­cas não tinha nen­huma visita vinda do Facebook.

Quem enviou o like, não perdeu tempo em ver a men­sagem do blog. Perde-se menos tempo é ver­dade, mas aos olhos de quem sabe o que se passa, tam­bém se perde valor.

A questão porque isto passa des­perce­bido é que ninguém está a mon­i­tor­izar, ou a per­gun­tar a quem faz like, o que real­mente pensa sobre o comen­tário que colo­cou. Mas se começarem a fazer este tipo de análise, podem perce­ber que os like’s que se obtêm tem o mesmo valor sen­ti­men­tal que um “Está tudo bem ?” dito de longe, sem sequer esper­arem pela resposta.

Outra situ­ação que ocor­reu a um grande amigo meu que estava muito em baixo dev­ido ao falec­i­mento de um famil­iar muito próx­imo, não aguen­tou e acabou por colo­car no face­book um pouco como se sen­tia. Qual a sur­presa dele, começar a ter like’s. LIKE’s! Em vez de par­tic­i­pação, um comen­tário amis­toso, uma palavra de con­solo, algo que mostrasse um pouco de humanidade nas redes que se chamam soci­ais. Mas não: rece­beu uns like’s. Desas­troso.

Face­book — Mel­hor meter a Face no Livro e estudar!

Isto dos like’s não bas­tam para se provar social­mente o valor de algo — tem de se comen­tar, par­tic­i­par. Par­tic­i­par é perder tempo numa acção que pro­mova a con­tinuidade de algo para con­tin­uar a aumen­tar valor. O like está a perder rap­i­da­mente o seu valor social.

E a demon­stração desse fenó­meno já per­meia nos vários car­toons cómi­cos alu­sivos ao like ser uma val­i­dação voyeurista de algo pelo qual pouco ou nada quer­e­mos par­tic­i­par — ou nos envolver.

Par­tic­i­par, dar o nosso con­trib­uto, mostrar o que pen­samos, reti­rar um pedaço da nossa per­son­al­i­dade e colar a algo, isso é que traz o real valor. Não só valor a esse algo, mas se real­mente esse algo não tiver o seu valor infla­cionado, retorna-nos esse valor acu­mu­lado, à nossa pessoa.

Só assim ter­e­mos real valor, como pes­soa, nas redes sociais.

Um abraço e tudo de bom,

10 comments
Carla Pereira
Carla Pereira

Boa tarde Ricardo e Jonathan, Assumo que sou uma utilizadora frequente das redes sociais, nomeadamente do facebook. E assumo-o sem qualquer espécie de culpa e não justifico sequer este vicio com a minha formação académica na área da comunicação. Encaro a sua utilização da mesma forma como encaro o telemóvel, "ferramenta" sem a qual seria muito dificil sobrevivermos ( eu pelo menos sobreviveria com deficit de qualidade de vida). No entanto, para mim em primeiro lugar estará sempre a interacção social. Nada substituí a cumplicidade de um olhar, um sorriso dado quando escutamos determinada conversa, o som de uma gargalhada e as entoações das vozes das pessoas de quem gostamos e com quem nos dá prazer conviver.As redes sociais podem e devem complementar as nossas interacções sociais. O problema é quando esperamos o que nao deveria ser expectável. Afinal de contas, quantos de nós já nao sentiram desilusão com a reacção de alguem que convive diariamente conosco. A possibilidade de nos desiludirmos com alguem das "redes sociais" é maior. Porque nestas, para o bem e para o mal, algumas pessoas sentem-se mais libertas das convenções sociais. Talvez por isso tenha sempre optado por uma postura. A minha forma de estar numa qualquer rede social é exactamente a mesma forma com que estou socialmente com quem me rodeia. A Carla Pereira do facebook é a mesma que está em familia, no trabalho, com os amigos: a noção dos limites é necessária e sobretudo utilizo uma forma de estar que pelo menos para mim funciona: "tratar os outros como quero, gosto e faço por ser tratada". Mas claro, de vez em quando quer na "vida" quer nas "redes" somos confrontados com surpresas: umas agradáveis, outras nem por isso. Mas no fim de tudo penso que as vantagens do contacto em rede, supera qualquer má utilização que delas possamos fazer. Afinal Ricardo, de que outra forma tão rápida, tão eficaz poderias comunicar com tantas pessoas ao mesmo tempo ao simples toque de um "enter"? Parabéns pelo blogue, confesso que só li este artigo, mas fica a promessa de ler quando puder mais alguns. Aos dois, a continuação de uma boa tarde. Carla Pereira

Jonathan Fontes
Jonathan Fontes

Olá Ricardo e Carla, Eu pessoalmente uso não diria excessivamente mas gosto pasar algum tempo. Basicamente como moro em Coimbra conviver com as pessoas que nós mais gostamos não é assim tão facil (pelo menos barata) e pela internet é mais barato. Outra das coisas que eu uso a rede social "Facebook" é por razões profissionais. Como disse anteriormente tenho um filtro muito restrito ao meu circulo de amigos. Por exemplo, sempre que o Ricardo posta um novo comentario de um novo post dele, eu recebo sempre notificação do facebook e assim dou uma rapidinha e leio o post. Se eu gostar comento (como estou a fazer agora) se não me interessou muito dou-lhe um like porque de facto li tudo. Abraços, Jonathan Fontes

Carla Pereira
Carla Pereira

Boa tarde, A utilização que cada um faz das redes sociais, acaba muitas vezes por "espelhar" muito da nossa personalidade. Sei que para muitos esta minha opinião pode parecer um exagero, mas acredito que as pessoas não conseguem fingir por muito tempo ser o que nao são. Ou seja adoptarem uma postura preocupada ou interessada nas redes sociais quando não é essa a sua forma de estar, não resulta durante muito tempo, porque acabam mais tarde ou mais cedo por adoptarem nas redes sociais os seus comportamentos reais. Compreendo muito bem o que escreveste embora esse alheamento aconteça por variadissimos motivos e em variadissimas situações. Eu falo por mim: muitas vezes um "like" é um sinal que li um determinado post e que de alguma forma revi-me no que foi escrito, sem que para isso sinta necessidade de acrescentar algo. Outras vezes há que nem sequer coloco um "like" e comento o que li. Como é obvio encontramos nas redes sociais o que encontramos no nosso local de trabalho, no nosso grupo social etc, ou seja: pessoas que acham que quantidade significa qualidade,por isso utilizam os likes avulso para mostrarem que existem, quase como uma chamada de atenção para a sua presença na "rede". Parece-me que a situação de desabafo do teu amigo sobre a morte de um ente querido e que suscitou uns quantos likes é caricato e reflecte como um grande numero de pessoas está nas redes sociais, mas com toda a sinceridade arrisco a dizer que essas pessoas nao teriam na chamada "vida real" um comportamento muito diferente. Bem, possivelmente nao colocariam um "like", um "gosto" na conversa, mas provavelmente nao se mostrariam disponiveis para escutar o desabafo sentido de alguem que precisava de um ombro amigo. Infelizmente esta é cada vez mais a nossa realidade, daí a importância de acarinharmos quem nos faz bem e demonstra a amizade que nos dedica, Carla

Jonathan Fontes
Jonathan Fontes

Olá Ricardo, Compreendo tudo o que esta a dizer, secalhar alertando essa pessoa directamente que esta a mentir ?! Mmm não sei, a mensagem do post é com certeza em tom de alertar e desabafo. Podes sempre desabafar com a pessoa que te desiludiu para alertando para esse mesmo facto. De quaqluer forma no facebook toda gente tem uma mascara. Cumprimentos, Jonathan

Jonathan Fontes
Jonathan Fontes

Olá Ricardo, A minha opinião pessoal sobre isto é que a intenção de cada um de dar um gosto ("like") a uma mensagem do mural difere de pessoa para pessoa. Eu por exemplo dou sempre um like quando de facto gosto mesmo da mensagem e/ou diz algo de interesse para a comunidade. Quando é uma mensagem de um tom de desabafo é que ai tomo outra atitude. No entanto no facebook também é preciso ter cuidado com as mensagens que se posta nos murais pois isso pode nos custa o nosso emprego, as nossas relações (amizades ou amorosas) e entre outras coisas. Há também necessidade de ter cuidado com que se partilha e com as pessoas que temos como amigos. Tenho um filtro muito restrito as minhas coisas mais pessoais no facebook, não partilho tudo com toda gente. Cumprimentos, Jonathan Fontes