Eu não gostava nada de gatos. Como animal de estimação, achava que era o bicho mais inútil que se poderia escolher. Uma iguana, uma aranha ou uma cobra sempre chamam a atenção pela exoticidade. Um aquário de peixes pode tornar uma sala exuberante. Um pássaro dá-nos música e alegria. Um cão pode-se ensinar truques. Um gato só serve para aquecer os pés no inverno… mas tentem lá meter-lhe os pés em cima.
Então que raio poderia eu aprender com um gato ?
Antes de mais, tenho um gato. É verdade, eu tenho um gato chamado Pistachio: pêlo negro, olhos verdes e muita personalidade. Eu não o queria, e nem ele a mim. Mas miava pela mãe, que o abandonou com uma patinha partida. Meti-lhe um valium numa bucha de queijo e ele meio grogue lá se deixou apanhar e pronto — é família.
Já com cerca de 8 anos, este gato moldou-se à minha personalidade, e eu aprendi imenso com ele. Senão, vejamos:

“Cansei de pousar para a foto — preciso de um profissional nisto!”
Não tenho PATRÃO
É verdade, o meu gato não tem patrão. Eu não mando nele. Ele vem quando quer, e vai quando está farto ou lhe apetece fazer outra coisa. A liberdade de opção do meu gato há muito que me atrai. Ele, essencialmente, faz o que quer. Quando faz asneira, tem consequência. Mas não sendo patrão dele, ele pode sempre optar pelo que mais lhe apetece fazer.
Nem sempre percebo o que o cliente me diz
Não faço ideia, de quando ele mia, do que me está a dizer. Isso lembra-me que nem sempre eu percebo do negócio do meu cliente. Muitos dos erros de comunicação entre mim e outra pessoa qualquer passa por perceber o sentido das palavras e, apesar de falarmos a mesma língua, os contextos variam muito, e isso pode ditar o descarrilar de todo o negócio. Pode parecer frugal, mas ter esta percepção de que nem sempre percebo o que o meu cliente diz faz muita diferença no meu comportamento quando me relaciono com eles.
Mas procuro entender as suas necessidades
Eu esforço-me por entender o que o meu gato precisa, ou tem falta de. E é uma questão de analisar, muitas vezes empaticamente, os sinais que ele me dá, e tentando ir por eliminação de alternativas até perceber o que ele me está a tentar transmitir. Isso demora tempo. E lembro-me sempre disso quando procuro perceber o que o cliente precisa e não o que o cliente me diz que quer, o que muitas vezes são coisas completamente diferentes. Por o contexto do cliente não ser, muitas vezes, direccionado para a área de IT que ele tenta explorar agora, nem sempre encontra a melhor abordagem para o projecto. A grande parte do sucesso do freelancer é perceber e orientar o cliente à medida que está a receber instruções do cliente, ajustando as necessidades deste à realidade do projecto.

Tempo de brincadeira — festas no gato é relaxante!
Descansar bastante
O freelancer é um indivíduo que se encontra sempre em alta voltagem. O freelancer percebe que não precisa ser o melhor do mundo: só precisa ser 10% melhor que a média. Mas para ser 10% melhor que a média, o freelancer tem de estar sempre a circular em altas velocidades. Como um motor a vapor, constantemente sobre pressão, o freelancer encontra-se facilmente sobrecarregado. E é nesta altura que tem de entrar a válvula de segurança. Ver o meu gato descansar, não só me faz relaxar, como também me lembra, às 3h e 4h da manhã, que eu também tenho de descansar, se desejo encontrar-me nas melhores condições no dia seguinte.
Brincadeira também tem o seu tempo
A carreira de freelancer é muito dada ao stress. A intensidade do trabalho, os prazos que não esticam, o cliente que gosta de adicionar pilhas de funcionalidades mínimas que “não custam nada a implementar, são coisinhas” que acabam por consumir um tempo enorme, a falta de descanso, o estarmos sempre acima da média, o equilíbrio do orçamento. É muito desgastante. O meu gato faz-me lembrar, sempre que quer brincadeira, que tem de haver tempo para ela, tempo para o lazer e o divertimento.
Cooperação no Inverno

“Não incomodar que estamos ambos a trabalhar!”
É no Inverno que eu faço mais trabalho. Nem sempre é o tempo frio que me faz ficar em casa, mas é na estação mais friorenta que acabo por desenvolver mais e por mais tempo seguido. Há uns dias atrás cheguei à explicação: o meu gato aninha-se no meu colo no Inverno e eu, para não o incomodar, acabo por ficar sentado em frente ao computador mais tempo. Isto faz-me pensar que é uma simbiose e, de uma maneira completamente aleatória, é uma cooperação que eu tenho no desenvolvimento do meu trabalho, e que é um case study de sucesso.
Conquistar os clientes
O meu gato não tem de fazer nada, ou quase nada, para ter comida, cama e um tecto para se abrigar. É escovado regularmente, leva massagens todos os dias, tem espaços de tempo lúdicos com os donos e ocasionalmente come uns rico petiscos. Não faz nenhum. E eu nem gostava de gatos no início. Como é que isto aconteceu ? É fácil: conquistou-nos. Isso lembra-me que conquistar os meus clientes todos os dias (ou quase todos os dias) é condição sinequanone de sucesso.
Não necessito de afirmar a importância que tem aprendermos todos os dias sobre o mundo que nos rodeia, as pessoas e os objectos com que interagimos todos os dias e recolher lições e informações sobre essas interacções. São essas lições que fazem parte da nossa crença de realidade.
Se temos de o fazer, mais vale que sejam boas lições com excelentes sujeitos, como o meu gato Pistachio.
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