Recen­te­mente, um amigo meu pediu-me ajuda para elab­o­rar um pro­jecto algo com­plexo mas muito inter­es­sante. A ideia que ele estava a desen­volver neces­si­tava, no entanto, de alguém que tivesse bons con­hec­i­men­tos de tec­nolo­gias open-source. É um pro­jecto algo com­plexo, envolve muitas horas de pro­gra­mação e algum know-how de pro­jec­tos de cariz social e media, e ele estava bas­tante inde­ciso nas escol­has tec­nológ­i­cas que ia fazer. Para além disso, pediu-me sig­ilo porque sen­tia que a ideia é mesmo boa e podia ser “roubada” por outros.

Todos os meus alarmes foram acciona­dos e senti que devia a este meu amigo dar-lhe o meu pare­cer e con­tar um pouco da minha exper­iên­cia para aju­dar a val­i­dar os meus comen­tários. Achei tam­bém que este é um exce­lente tema para um post.

Uma exce­lente ideia não guarda reg­isto do que pode falhar!

Sou capaz de enten­der a quan­ti­dade de “ideias per­feitas” no papel que devem estar na cabeça de muita gente que já estão a gas­tar imen­sos recur­sos para tam­bém ficar per­feita na real­i­dade, ou out­ros que vão con­tando a história da sua ideia per­feita de café em café com os ami­gos, queixando-se da sua falta de recursos.

Vou começar por con­tar algu­mas histórias de casos que me suced­eram e, espero como eu, cheguem às con­clusões que eu cheguei.

O pro­jecto que nunca foi lançado

Há uma década atrás, tinha uma empresa com o meu mel­hor amigo e tín­hamos já pouca esta­bil­i­dade com ela quando esta história sucedeu, que acabou por arrasar com a empresa e, feliz­mente, não acabou com a amizade porque val­orizo esta acima de val­ores mate­ri­ais. Acabei

Esta ideia não saiu das fotos de teste.

por arran­jar um con­tacto de uma pes­soa muito bem colo­cada no mundo empre­sar­ial e no meio social que tinha um pro­jecto semi-realizado mas que ainda não tinha ido à praça pública. Uma boa parte do tra­balho estava feita, fal­tava “limar umas arestas”. Este era um pro­jecto gigante, de apli­cação, rela­cionado com tro­cas com­er­ci­ais entre empre­sas de grande porte, e a minha empresa iria levar uma comis­são muito gen­erosa do negó­cio, para quem tinha tinha acabado de entrar, com a maior parte do trabalho.

O pro­jecto, na nossa parte, con­sis­tia em dar assistên­cia e manutenção ao pro­jecto, bem como efec­tuar mel­ho­rias e desen­volver novas apli­cações de apoio. Tudo isto muito certo. Começá­mos por desen­volver umas fer­ra­men­tas de apoio, web­wiz­ards (na altura que web­wiz­ards eram a moda!), etc mas fal­tava sem­pre qual­quer coisa para o lança­mento que, “dev­ido à natureza do mer­cado, tinha de ser per­feito”. Esgo­ta­mos tudo neste pro­jecto que durou 3 anos e nunca viu a luz do dia enquanto estive­mos imer­sos nele. Não viu a luz do dia por decisão do gestor em querer tudo per­feito. Isto arra­sou comigo ao nível pes­soal e profis­sional e durante 9 meses não pude sequer ouvir falar em tra­bal­har como freelancer.

Mais tarde lembrei-me do seguinte: antes de eu entrar com a minha empresa, este pro­jecto tinha tido a parce­ria de um grande ISP (!) com todos os recur­sos finan­ceiros e humanos e nunca chegou a ser lançado. Isso dev­e­ria ter sido um grande sinal de alarme para mim, mas a ganân­cia do din­heiro ofuscou-me — maldita percentagem!

A ideia que não saiu das conversas

Blah blah não enche carteira!

Outra história que eu tenho foi uma mania que me deu há uns tem­pos. Tinha um colega que teve bas­tante sucesso (e ainda tem creio eu!) com um negó­cio em feiras, sejam munic­i­pais, na FIL e nas feiras de arte­sanato, com uma “bar­raquita” de sumos trop­i­cais, fun­da­men­tal­mente cimen­ta­dos em pro­du­tos brasileiros. No decor­rer dessas con­ver­sas, surgiu-me o con­ceito das “sandes de leitão”, que durante algu­mas con­ver­sas com pes­soal amigo ainda me atormentam.

O con­ceito do negó­cio era sólido. No mesmo tipo de feiras, uma “bar­raquita” de sandes de leitão faria furor, espe­cial­mente um leitão que é pro­duzido em Negrais, que eu tive na minha recepção de casa­mento. Dis­cuti isso com o meu colega e o que ele me disse, ainda me lem­bro: “Não te sei dizer se dá ou não, tens de exper­i­men­tar. Já vi out­ros casos em que as pes­soas fazem dupla fila para comprar.”

Ape­sar do con­ceito do negó­cio ser sólido, a ideia não me atraía em par­tic­u­lar por não deter qual­quer von­tade de estar a vender sandes de leitão numa bar­raquita. Esta ideia de negó­cio, por inacção, por muito boa que seja, tam­bém não resul­tou em nada.

 O pat­inho feio que virou cisne

Quem lança um pat­inho, pode transformá-lo. Quem não lança nada…

A última, por fim, conta a história de um amigo meu que tra­bal­hou comigo num pro­jecto e que adora mer­gulho. Tinha este con­ceito de criar um por­tal de mer­gulho e falá­mos durante muito tempo sobre isso. A minha pre­ocu­pação era se ele con­seguia fazer o pro­jecto ren­der, mas não era a dele. A dele era se con­seguiria fazer algo ao nível do que ele que­ria, dado ser um grande pro­jecto. O meu con­selho para ele foi (algo do género de): “Se te apetece fazer, faz. Lança a ver­são mais baixa. Começa com pouco e vai evoluindo, mas vai lançando as coisas cá fora para teres feed­back! Não é o que temos feito nos pro­jec­tos dos nos­sos clientes, que é tra­bal­har nas ver­sões que eles vão acei­tando os respec­tivos cader­nos de encargos ?”

Feliz­mente que ele seguiu o meu con­selho e criou o site skaphandrus.com, que se tornou na refer­ên­cia mundial da activi­dade de mer­gulho, e o nome dele é Luis Miguens. Posso-vos dizer que o site ini­cial­mente não tinha nada a ver com esse que encon­tram agora e creio não ter mais de 7 anos de existên­cia. A minha esposa até deu uma ajuda a inserir as espé­cies mar­in­has na base de dados do por­tal, já numa segunda ver­são do site.

Tudo isto para dizer o quê ? Quais as elações que tiramos destas histórias ?

 Ideias podem ser utópicas

Utopias não exis­tem em fotografias… Só em desenhos.

Ideias geral­mente são per­feitas, porque têm a pos­si­bil­i­dade de ser utópi­cas. A exe­cução, que as trans­forma numa real­i­dade, altera-as tanto que chega a ficar muito pouco do orig­i­nal, mas adap­tada à real­i­dade para poder sobre­viver e evoluir.

O nosso medo em lançar o pro­jecto passa muitas vezes por não saber se a ideia tem anda­mento ou não. Quer­e­mos lançar tudo o mais per­feito pos­sível, pelo medo que o pro­jecto possa não ser bem aceite pelas imper­feições.
As nos­sas Ideias são sem­pre boas mas a real­i­dade é que as nos­sas ideias, para nós, rara­mente são más. E para os out­ros ? Que inter­essa fazer um pro­jecto espec­tac­u­lar se não tem aceitação — veja-se o caso dos por­tais B2B há uns anos atrás ? Gas­ta­mos uma quan­ti­dade enorme de recur­sos e depois não tem lugar no mercado.

Passa-se o mesmo no caso das canções dos artis­tas — rara­mente os grandes hits aceites pelas mas­sas são os que eles defini­ram como canções de eleição para eles próprios.

 Ideias valem muito pouco

O con­ceito da ideia ser valiosa é muito debatido e eu vou intro­duzir um con­ceito que me foi pas­sado por uma pes­soa espec­tac­u­lar, que eu tive o

O esforço de criar uma ideia!

prazer de entrar em con­tacto — Derek Sivers — acon­selho viva­mente a verem os seus videos e as suas palestras no TED.

O con­ceito é que a ideia é um mul­ti­pli­cador numa equação de negó­cio. A equação do negó­cio implica ideia x exe­cução. Se a ideia for boa e a exe­cução for boa, o resul­tado é um grande negó­cio. Se a ideia for exce­lente, mas a exe­cução não exi­s­tir, não existe negó­cio — não pro­duz nada.

Logo, a ideia não vale quase nada. Vale um tópico de con­versa, num café, ou bar ou numa refeição ani­mada (como foi a ideia das sandes de leitão :D ).

 A armadilha dos recur­sos já gastos

O grande prob­lema de inve­stir­mos muitos recur­sos é a armadilha recor­rente de con­tin­uar a gas­tar recursos.

Ideia “Buraco Negro”

É fácil con­ter as der­ra­pa­gens em lança­men­tos pequenos, com pou­cas alter­ações de difer­ença em cada lança­mento. Mas e quando se pre­tende fazer um grande lança­mento ? Criar um pro­jecto enorme tem nec­es­sari­a­mente fal­has no seu planea­mento. Se um pro­jecto tiver per­calços não planea­dos — todos têm! — os recur­sos ini­ci­ais já foram e têm de se fazer ajus­ta­men­tos rec­ti­fica­tivos e a ideia de se aban­donar o pro­jecto vai sendo adi­ada pelo facto que já foram gas­tos imen­sos recursos.

Num pro­jecto com poucos meses de lança­mento e com fun­cional­i­dades mín­i­mas, já temos uma noção do que é necessário alterar. O próprio mer­cado, as pes­soas que vão usar o serviço, vão dar esse feedback.

 O Camião e a scooter

Grandes pro­jec­tos comportam-se como os camiões: lentos a arran­car, lentos a manobrar, difí­ceis de man­ter e cus­tam muitos recursos.

As nos­sas grandes e sig­ilosas ideias só pas­saram pelas nos­sas cabeças porque somos seres super-inteligentes, quiçá de outro plan­eta, e por isso é que mais ninguém criou a nossa ideia numa real­i­dade. Isto é com­ple­ta­mente falso.

Se alguém ainda não criou, há 3 alter­na­ti­vas mais prováveis:

1 — Já tiveram a ideia e estão discuti-la nos cafés e não a irão lançar nunca — mas estão a espalhá-la.

2 — Não a acham grande ideia, e se foram os con­sum­i­dores da sua ideia, pode ser um mau indício.

3– Estão a cria-la com um pro­jecto mega­ló­mano e gigan­tesco — sorve­douro de recursos.

4– Deve estar aí a esta­lar nas mãos de alguém que criou uma “scooter” de projecto.

Um pequeno pro­jecto comporta-se como uma “scooter”. Leve, ágil de mao­brar e de man­ter, neces­sita de poucos recur­sos para ser adquirida e pode ser mais facil­mente descar­tada. Se mais tarde a “scooter” já não servir, sem­pre podem evoluir.

 O meu con­selho: A ver­são 1.0

Saiam da casca!

O meu con­selho para todos os que querem ini­ciar um negó­cio é criem uma ver­são 1.0 do vosso negó­cio, que tra­balhe só com o mod­elo mais básico do vosso negócio.

Colo­quem a vossa ideia cá para fora o mais básico e rápido pos­sível. Lancem o negó­cio logo antes que a chama se apague. Não per­cam muito tempo em grandes planos de negó­cio. Há um ditado no mundo empre­sar­ial que diz: “Não há plano de negó­cio que resista ao primeiro con­tacto com o cliente.”

Se encon­trarem aceitação, tra­bal­hem no pro­jecto, evoluam-no e façam dele uma “estrela ascen­dente”. Caso con­trário, se não tiverem aceitação dos “early-adopters”, desfaçam-se do pro­jecto antes que invis­tam mais din­heiro, mais tempo e mais recur­sos, e pro­curem o próx­ima ideia junto do vosso coração.

Há-de exi­s­tir uma que é a vossa “Estrela Ascendente”.

 

Peço des­culpa pelo post longo mas é um assunto ver­dadeira­mente apaixo­nante e eu creio que as min­has opiniões podem gerar con­cór­dia ou dis­cór­dia. Por isso, podem colo­car os vos­sos comen­tários em baixo. Gostava de saber o que vocês pen­sam sobre isto.

 

Bons pro­jec­tos!

 

Um abraço e tudo de bom,

2 comments
Jonathan Fontes
Jonathan Fontes

Olá Ricardo, Concordo com tudo, mais não posso dizer, contudo posso dizer-te a minha opinão noutra situação. Mas regra geral concordo não vale apena investir 5000€ ou até mais, 30 000€ se não tiver saída e não sabermos o feedback dos utilizadores (quando digo utilizadores é pessoas que usam a aplicação). Abraços, Jonas

Ricardo
Ricardo

Viva Jonathan, A questão é mesmo como a colocamos. Se uma ideia não nos parecer boa com uma implementação simples, não é a implementação sofisticada que a irá tornar boa. Um abraço e bons projectos, Ricardo Rocha