Valor HorárioSendo um free­lancer novo ou expe­ri­ente, a real­i­dade é que provavel­mente não sabe quanto deve valer por hora. Já pen­sou que provavel­mente estará a sair prej­u­di­cado de um negó­cio, na maio­ria das vezes ? Ou se está agora a começar, não seria inter­es­sante saber o quanto dev­e­ria cobrar pelo seu tempo ?

E quando o seu cliente per­gunta porque está a pagar tão caro? Ou tão barato (por acaso isso nunca perguntam!)?

Este prob­lema agrava-se sub­stan­cial­mente quando o cliente sabe que ele próprio recebe cerca de 40€ por hora e nós esta­mos a cobrar 60€ por hora, e muitas vezes sente-se rou­bado. A ver­dade é que seguindo umas con­tas conc­re­tas, o cliente é bem capaz de estar a gan­har mais que o freelancer.

Tem de exi­s­tir uma medida para equa­cionar o valor base horário a par­tir do qual existe uma noção conc­reta do valor do nosso tra­balho, para depois poder­mos negociar.

Pas­sado e Presente

Ora vejamos, se eu, um free­lancer, fazia cerca de 40.000€ no emprego ante­rior, é nat­ural que seja essa a minha base de refer­ên­cia quando passo a ser free­lancer. O prob­lema são as condições difer­entes entre uma posição e outra.

Acima dos 40.000€, agora temos de colo­car os cerca de 58% ( entre os 23,75% da Segu­rança Social pagos pelo patrão, os 18%/23% de retenção do IRS (para nen­hum ou 1 depen­dente, casado um tit­u­lar / para não casado ou casado dois tit­u­lares nas mes­mas condições) e os 11% pagos pelo empre­gado) que o Estado consume.

Billable Hours

Exerci­tava mais se fos­sem horas cobráveis!

Ora fazendo as con­tas temos 40.000x1.58 = 63.200€. Porém, temos de nos lem­brar dos seguros de aci­dentes pes­soais e de vida, que são pagos pela empresa onde tra­bal­há­va­mos e agora temos de pagar nós. Temos de nos lem­brar de nos pagar­mos férias e incluir esse valor nos nos­sos hon­orários. Temos de nos lem­brar de todas as despe­sas que podemos ter rela­ciona­dos com o tra­balho de free­lancer, entre eles algu­mas refeições fora, despe­sas de gasolina e telemóvel, etc.

Assim, fazendo as con­tas por alto:

  • Seguros — 100€/mês
  • Férias — 3.000€
  • Despe­sas genéri­cas — 300€/mês

Facil­mente cheg­amos à con­clusão que o nosso rendi­mento con­creto estará mais próx­imo dos 72.000€.

Agora já podemos cal­cu­lar o nosso valor horário. Mas primeiro que isso, nen­hum free­lancer con­segue vender, fac­turar os seus clientes e imple­men­tar pro­jec­tos os 20 dias de cada mês.

Activi­dadeDias por mês
Admin­is­tra­tiva3
Ven­das4
Férias e Feriados2
Apren­diza­gem1
Total de dias não facturado10

O mel­hor que ele pode fazer se ele for mesmo muito bem suce­dido é fac­turar 10 dias do seu tempo em cada mês.

Con­tas de Sumir

Assu­mindo 10 dias fac­turáveis em cada mês, pre­cisamos dos seguintes val­ores horários para fazer um valor bruto de 40.000€ SEM DESCONTOS nem qual­quer tipo de despe­sas impostas pela actividade.

Valor Men­sal:        40.000€/12 meses    = 3.333,33€
Valor Diário:           3.333€/10 dias          = 333,33€
Valor Horário:       333,3€/8 horas          = 41,67€/hora

Por 41,67€/hora, estou a rece­ber muito menos do que rece­bia quando era um empre­gado full-time. Se quiser real­mente igualar o meu salário ante­rior, tendo em conta os descon­tos, para um total bruto de 72.000€, o valor horário terá de ser o seguinte:

Valor Men­sal:       72.000€/12 meses    = 6.000,00€
Valor Diário:           6.000€/10 dias         = 600,00€
Valor Horário:          600€/8 horas           = 75,00€/hora

Com 75€/hora, não posso dar-me ao luxo de fac­turar menos de 120 dias do meu tempo por ano, o que é muito com­pli­cado de efectuar.

Consultor

Con­clusões

O ver­dadeiro desafio está em desco­brir como man­ter o tra­balho a fluir com reg­u­lar­i­dade de modo a con­seguir a média de fac­turação de 10 dias/mês.  Para além disto, ter de man­ter um valor horário com base nas min­has capaci­dades e nível de experiência.

Eu pes­soal­mente não con­heço muita gente a fazer este tipo de cál­cu­los, e é nor­mal com­pen­sar tra­bal­hos cobrando mais e out­ros cobrando menos, e manip­u­lar a difi­cul­dade de ambos. Por isso na maio­ria dos casos, estima-se o pro­jecto por inteiro, a nivel de horas e ten­ta­mos garan­tir ter as horas sobre controlo.

Este artigo não deixa de ser um bom exer­cí­cio de raciocínio que faz pen­sar nos preços que prati­camos e nas situ­ações que muitas vezes nos colo­camos face a cer­tos projectos.

Gostava de saber se tem uma abor­dagem difer­ente a este panorama. Diga-me como cal­cula o seu valor horário e, se por con­trário, for um com­prador / cliente, como avaliou o valor do tra­balho que adquiriu de um freelancer ?

Um abraço e tudo de bom,

Nota: Este artigo é um desenvolvimento obtido 
do artigo de Ted Grigg.
Blog Ted Grigg's Reflections about Direct Marketing.
4 comments
Alcino Jorge
Alcino Jorge

Olá Ricardo, Muitos parabéns com o trabalho que tens feito com o teu blog! Tenho de concordar com o Pedro aqui. Já reparei que em Portugal (só vivo cá há 7 anos) é bastante comum as pessoas associarem o valor daquilo que possuem (seja isto um bem ou uma capacidade para realizar um serviço) ao custo que tiveram com a sua produção ou realização. No entanto, custo de produção/realização e Valor (de mercado ou para o cliente) são 2 conceitos bastante distintos. Custo de produção/realização é resultado da contabilização analítica que se faz dos meios financeiros em que se incorre para atingir os objectivos (um bem ou serviço). Valor normalmente é determinado pelo mercado e a não ser que um freelancer (por exemplo) seja forte monopólio na sua área, pouco conseguiria influenciar isto no curtíssimo prazo. Embora isto não seja um exemplo “perfeito” para metaforizar os conceitos mencionados em cima, estou a lembrar-me duma história curta e muito fácil de contar que penso que poderia evidenciar a verdade da relação entre esses conceitos: A história é sobre uma senhora que conheci cá há uns anos, que tinha um prédio rústico que estava a tentar vender por 90.000 Euros (pois era este o valor do restante da dívida que a senhora tinha contraído com o banco quando comprou o prédio). Não estando disposta a baixar o valor que ela estava a pedir, a senhora durante os próximos 3 anos nunca conseguiu livrar-se do terreno. Considerando que o valor de mercado do prédio rondava os 50.000 Euros na altura, esta situação tornou-se bastante absurda nos olhos de quem soube do caso. O custo de produção de um bem ou da realização de um determinado serviço é um factor importantíssimo a estudar aquando da elaboração de um plano de negócios. No entanto, este factor serve apenas para determinar a viabilidade de um determinado modelo de negócio… Isto é: Se consegues produzir um bem ou realizar um serviço por um preço inferior ao valor de venda do mercado desse bem/serviço, já existe uma indicação positiva da viabilidade dos teus planos (quanto mais baixo os teus custos forem, em relação ao valor do mercado, mais positivo é a indicação). No entanto, se encontrares que os teus custos não forem abaixo daquilo que é o preço do mercado, ou se a maioria da tua concorrência ainda conseguir produzir com custos muito mais baixos que os teus, estes seriam fortes indicações para não avançares (no último caso seria porque a capacidade financeira dos teus concorrentes mais provavelmente seria utilizada para te eliminar do mercado. No primeiro caso continua a haver lugar a viabilidade, mas isto exigia uma estratégia inteligente no que toca aos 4P’s de marketing). Só para acrescentar uma pouco de introspecção académica aqui, achei de interesse mencionar que no estudo de Estratégia e Planeamento Empresarial frequentemente se fala de empreendedores que, em vez de estudarem a viablidade daquilo que (no coração) querem fazer, vão à procura dos modelos de negócio que têm viabilidades inerentes à partida, e avançam com investimentos apenas nesses. O paradigma que induz à associação dos custos incorridos (ou receitas desejadas) com o valor de algo ainda é um fenómeno muito comum em Portugal… E é um dos muitos factores que contribuem para que Portugal não esteja a ter sucesso ou inovação empresarial (no geral) comparável com o resto do mundo desenvolvido ou até certas regiões do terceiro mundo. Contudo, creio ainda que isto seja apenas oportunidade e espaço para aqueles que reparem nessas imperfeições fazerem uma revolução no mercado português. Espero apenas ter acrescentado uma introspecção com efeitos positivos no teu blog Ricardo e desejo-te muita força e sucesso com a evolução futura do mesmo!

Ricardo
Ricardo

Viva Alcino, Muito obrigado pelo teu comentário. É este tipo de informação que nos permite a ambos ir evoluindo na informação que obtemos e dispomos. Este artigo é bastante subjectivo, dado que o quanto nós valemos por hora, para nós, é certamente diferente para o cliente, que pode desejar que o nosso valor seja o mais baixo possível. Em relação à conclusão, temos pano para criar mais artigos sobre a subjectividade entre serviço oferecido e necessidades do mercado. E são realmente as necessidades deste que teremos de avaliar, à nossa medida, a que nos realmente interesse satisfazer. Cumprimentos e bons projectos.

Ricardo
Ricardo

Olá Pedro, Compreendo o que dizes e concordo que o cliente é UM factor importante na tomada de decisão de definir a tarifa que vamos apresentar ao cliente. Todavia, e contrariamente aquilo que é a tua opinião, eu não considero ser o único factor. Se analisares o meu post recente 9 dicas para o novo freelancer, perceberás o que eu digo. No entanto, ter uma tarifa inferior para um trabalho pode também ser considerado um "mau" orçamento, especialmente para ti. Mas são tomadas de decisão sobre o que cada um prefere fazer. Esse sentimento de apresentar um orçamento mais pobre é sem dúvida o medo deste não ser aceite e, por conseguinte, falhar o pão para a boca. No ínicio, para capturar o cliente, até posso concordar, mas acho que nos rebaixa, a nível de capacidades e de ser insustentável como nível de vida definirmos um valor inferior ao que pensamos valer. Obrigado pela tua opinião e comentário e bons projectos.

Pedro
Pedro

Olá Ricardo, acho o teu Blog bastante interessante porem, acho que no que diz respeito a este artigo, sinto que o valor hora ideal não será como descreves o valor que cada um de nós acha ser, perante o nivel de vida de cada um (tendo em conta as despesas, etc como descreves em outros posts), mas sim o valor ideal para o cliente. Como freelancer também sei que gostaria por vezes ganhar mais aqui ou ali em determinados projectos. No entanto, sei também que um mau orçamento (valor hora exagerado) significa perda de trabalho e consequentemente perda de futuros projectos. A minha visão sobre este assunto é uma visão que assenta mais numa toada de continuidade. Não me importo por vezes fazer um valor hora inferior sabendo que isso poderá me trazer mais trabalho no futuro. Por isso acredito que o valor hora será um valor que se ajusta muitop mais ao cliente do que nós próprios (obviamente sem nos auto-exploramos) Bom trabalho! =)